Na Parede de Escudo

Paredes de escudos, segundo a wikipedia (preguiça de elaborar minha própria definição) é uma estratégia militar usada na Antiguidade e na Idade Média, que consistia uma linha de homens armados de escudo, espadas ou lança.

Esses homens ficavam juntinhos (agora é de minha autoria, tá gente?) protegendo o camarada do lado com o seu escudo e quando se abria guarda atacava com a lança. A parede de escudo ficava ali na comissão de frente da guerra, era matar ou morrer #CapitãoNascimentoFeelings.

This is Spartas!!

 Quando decidi que seria Au Pair eu não fazia menor idéia da onde estava me metendo. Porque que alguém em sã consciência abandona tudo, as pessoas, o conforto do seu lar, a zona de conforto em geral, a carreira, pra virar babá num outro país e ir morar com gente que nunca viu na vida?

Do dia pra noite você tem uma rotina completamente diferente, um trabalho que nunca fez antes (e que não pensaria em fazer se na terrinha estivesse), morando meio que “de favor” na casa dessas pessoas, que alias, tem o poder da lei. É você que segue as leis, e que tem o trabalho de se adaptar a elas. No melhor estilo manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Não vou negar, é muito estresse. Não é a toa que muita menina pira quando chega aqui. Se você tiver a sorte de fechar com uma família bem boa, então sua experiência nesse pais, tem 80% de chance de ser muito boa, ficando apenas os 20% dependendo de você mesmo.

Vou até mudar de parágrafo pra fazer aquele alerta que todo mundo que chega aqui faz, mas que quando estamos no Brasil, no auge da nossa empolgação, a gente ignora: vale a pena investir tempo e energia na escolha de família. Não fecha na empolgação.

Mas agora, se você não tem uma família parceira e legal, se tu pega uma família escrota que (desculpa aí mãe) só quer f*der com você (e sem vazilina e com areia, por favor!), grandes chances de dar merda. Além do estresse de ter que lidar com a situação nova, uma eventual homesick que pode bater (e bate) você ainda tem que lidar com sem noçãozice, ou pior, mal caratismo mesmo.

Infelizmente essa é uma triste realidade da maioria das Au Pairs. Tá, não tenho nenhuma estatistica pra falar, nem nada cientificamente comprovado se é a maioria, mas tem bastante gente nessa situação por aí.

Ser Au Pair é não ter que engolir um sapo só, mas um brejo inteiro. Não é matar um leão por dia, mas uma matilha inteira.

É ter em mente que assim como as Au Pairs dão uma mentida enfeitada no seus Apps, as famílias também fazem o mesmo. Só que claro, a corda sempre vai roer para o lado mais fraco. A Au Pair é sempre a parte  mais vulnerável da situação. Se amanhã a família de botar na rua e a gência virar as costas, você está por sua conta.

Aqui, algumas da vezes, somos tratadas como quem vem pra cá precisando muito de dinheiro, sabe galera do terceiro mundo vindo tentar a vida no mundo desenvolvido. Tem que ter em mente que a maioria das familias não querem um novo membro na família, muito menos dividir diferenças cultural, eles só querem uma babá.

Muitas familias acham que Au Pair não sente frio, cansaço, medo, fome, que consegue se dividir em duas até três pra dar conta de tudo. Que não precisa estudar, ou ter vida social.

A mão de obra de uma Au Pair é bem barata pra família, e normalmente as meninas vem pra cá com a cultura do medo de voltar. Então acabam se submetendo a certas humilhações com medo do tão rematch.

As agencias odeiam rematchs e se sua LCC não for tranquila ou estiver afim de ajudar, grandes chances de você voltar. Sim, isso mesmo. Nem parece que é um programa de intercâmbio e que você pagou para está aqui.

A idéia desse post surgiu numa conversa com um amigo (outra vez, vou pedir pra ele patrocinar idéias pra cá :P), que finalizou minha choradeira de pitangas resumindo assim, nas palavras deles (sim um Ctrl C – Ctrl V):

“Quando eu li sobre a parede de escudos, a primeira vez eu passei a pensar quase tudo nestes termos. Aliás, tudo na vida pode ser pensado em termos de guerra e estratégia de guerra quando eu ficava imaginando aquela cena, aquele barulho de metal contra metal, o pânico, o medo, o suor, aquelas estocaas, até o momento em que o Uthred consegue estocar o adversário penetrar a parede de escudos e aí conseguia lutar com uma naturalidade como se estivesse dançando. Ele chama “a dança da batalha.”

E tem que gostar de arrancar cabeças, de sentir o sangue jorrar, o medo e o suor. E, sem brincadeira alguma, hoje eu sempre penso nas coisas como paredes de escudo.”

Ser Au Pair é se enfiar numa parede de escudo. É fazer a dança da batalha diariamente. É aprender na prática o significado da frase “standing for yourself” porque aqui não vai ter ninguém pra defender o seu lado, se você não for lá e gritar pelos seus direitos eles serão deliberadamente ignorados.

É saber engolir orgulho quando uma menina de 4 anos grita pra você e você não pode fazer nadar. ou quando você acaba de limpar faxinar o quarto da guria e ela simplesmente ignora e deixa uma nojeira cinco minutos depois. Ou ouvir desaforo de pirralhada.

É saber ocupar a mente quando você teve que ficar duas semanas longe de tudo e de todos, totalmente inapropriado no lugar, e você a única com hora pra levantar.

É ser mais humilde, saber tratar o varredor da rua igual ao doutor.

É ser criativo para pensar numa forma de não deixar a rotina ficar tão sacal.

È ter jogo de cintura na hora de abordar assuntos desagradáveis, ou saber lidar com uma situação difícil.

É saber criar laços parcerísiticos com pessoas que você viu pela primeira vez porque elas serão sua família aqui, e de vez em sempre uma vai ter que segurar a barra da outra.

É saber transformar todas essa “experiência de guerra” em algo positivo. Sabe-se lá como.

Então você aí leitora(o), provável futura Au Pair, não quero desanimar ninguém, a experiência é válida. Até porque, para a maioria de nos, ser Au Pair era o único jeito de fazer intercâmbio (presente!).

Mas quando vier pra cá, tenha em mente: Parede de escudo!!

Beijos pra quem fica!!

Ps.: Obrigada Renato, amigo e leitor fiel, pela inspiração e pelas palavras 😀

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